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sábado, outubro 29, 2016

Resenha do livro: Brasiliana A menina em Riace – Nanda Gois



              O romance Brasiliana: a menina em Riace da autora Nanda Gois inicia com um prólogo onde conhecemos a história de uma jovem brasileira-Gabriely- levada por sua mãe ainda menina para a Itália e lá criada como se italiana fosse,de fato. Por ser ainda pequena, Gabriely desconhece esse passado no Brasil, e vive tranquila ao lado da mãe Eva, do pai Victório e de seu irmão Benetto. Por causa das maledicências dos vizinhos, eles se mudam para Riace, na Itália, ao sul da Calábria, e recomeçam a vida. O pai Victório inicia uma serraria e nela trabalha com seu filho mais velho, Benetto, irmão de Gabriely. A rotina era trabalhar o dia inteiro na serralheria, e de tarde, ir se encontrar com amigos e tomar vinho. Embora tivesse consciência de que fora um erro, encontrar sua princesinha correndo, o fazia ver, que afinal, o erro era sim, um acerto. Não tinham muito, viviam com pouco, mas a vida era tranquila. O pai, devoto de são Nicolas, recorria a Nossa senhora dos Majores, sempre que necessário. A mãe amava muito a menina e a tratava com muito carinho. Essa era vida de Gabriely. Ao final desse prólogo,ao contrário de outros livros neste gênero,descobrimos que aqui, o que importa não é conhecer a verdade e sim, como os personagens descobrirão, de fato, aquilo que o narrador esconde deles. Desde o principio o leitor não tem dúvidas: Gabriely não é filha de Victório, muito menos é italiana, e sua mãe a leva ainda pequena para a Itália. A pergunta certa que o leitor deve fazer é: Por quê? A narradora/autora brinca com a imaginação do leitor, revelando e suprimindo informações e conduzindo a histórias como se fossem as ruas estreitas de Riace, por onde Gabriely brinca e é feliz. Então, a primeira eucaristia da menina, seu pai, muito devoto, leva a menina toda vestida de noivinha para a primeira comunhão. A menina ia receber a eucaristia e abaixa-se para receber, como as outras crianças antes dela, a benção do padre,quando então ele,num atitude inusitada,retira a menina da fila e começa esbravejar que aquela menina não pode receber comunhão por ser a filha do pecado. Por conta disso ela e a família não mais poderia ir à igreja, por conta do pecado dos pais, e a maledicência voltou a cobrar seu preço: logo eles estavam isolados, os fregueses começaram a rarear, a mãe, Eva, não tinha mais com quem conversar quando ia buscar água na fonte ou mesmo lavar roupas… E a vida começou a mudar… E a mudar para pior. A única pessoa que não os abandonou foi Maria, que se revelou uma amiga fiel. O tempo passa e, apesar das dificuldades, Gabriely cresce e faz uma amiga na escola, Latifah-uma menina Nigéria com 14 anos. A menina e a familia receberam muito apoio com a dificuldade de compreensão da língua italiana e principalmente Gabriely aproximou-se muito da familia, através da amizade das duas agora pré-adolescentes. Mas a escola fundamental estava acabando e a professora disse orgulhosa, que Gabriele era sua melhor aluna e que seu pai deveria matriculá-la na escola na cidade, porque ali, naquele vilarejo, já não teria escola para Gabriely. A menina, muito feliz, vai contar ao pai o que a professora disse. Mas, a reação do velho Victório surpreende a menina. Ele não só não fica alegre com a notícia como revela que agora a menina vai passar a fazer os serviços domésticos, porque a mãe está sempre fora, só retornando durante os finais de semana, e muitas vezes, nem isso. Com a diminuição da clientela na serralheria, a alternativa foi Eva passar a trabalhar em casas de familia. Com o tempo, as discussões entre o casal tornaram-se mais frequentes. O primeiro dia de aula chega e Gabriely vai escondida até a cidade atrás de Latifah, mas acaba desistindo e volta para casa, sem nem mesmo assistir a aula. Em principio ele, furioso, aos poucos se acalma. A raiva se abranda no coração do velho Victório que, apesar de dizer que possui os motivos dele para não querer que a filha estude na cidade, faz um acordo com a amiga da menina, e na volta da casa, a menina e almoçaria lá e depois disso Latifah ensinaria à Gabriele a ler. Além disso, poderia levar uma cabra para dar leite para os irmãos menores e ainda iria oferecer um emprego ao irmão mais velho de Latifah, que prontamente aceitou o acordo… E assim foi,por algum tempo. Gabriely cresceu e no outro verão, já não queria mais estudar. Estava com muitas saudades da mãe, que já não voltava para casa. Um dia, a mãe retorna e aos gritos com o marido, o chama de carcamano e diz que levará os filhos com ela… Mas acaba indo embora de vez, não sem antes entregar para a filha uma boneca de pano vestida com as cores da Itália, que a menina achou de Carmela. Agora, eles estão sozinhos, Gabriely já uma adolescente, começa a desobedecer as ordens paternas e a vida entre eles já não é mais feliz. Subitamente, o velho morre, e eles são visitados por pessoas más ainda durante o velório do velho, que insinua que ele tinha relação com a máfia. O livro Brasiliana: A menina em Riace é um romance dramático ,cujas cenas são apresentadas com uma breve descrição após o titulo,servindo explicação daquilo que o leitor terá em cada cena (capítulo). Além disso, existe uma imagem da menina Gabriely em estilo Litografia acentuando a cor verde da imagem, característica da bandeira italiana. Muito interessante, além de ajudar na imersão do leitor no cenário da história. Em determinados trechos, a autora deixa claro sua veia poética ao transformar descrições simples dos personagens em prosa poética:

                                                                                   ****
              “Apenas um fio de esperança… Mas a vida já se mostra impiedosa, severa e cruel para os que, desprovidos de bonança, amarguem as duras penas impostas pelo frio que castiga sem piedade a região da Calábria. De longe tudo seco por sobre os morros, os carneiros montanheses se agrupavam de tal forma a deixar a paisagem assim. Numa pequena calosidade no calcanhar da Itália, deitada nos braços de Morfeu, coberta por seu manto fino da mais pura névoa vinda do mar, abafado pelo surdo canto das ondas, que deitam seus olhos aos faróis longínquos que são os braços de Tritão, ao cair o sono sobre o sol, antes vibrante do Mediterrâneo, tudo parece agora muito distante. A brisa gelada que desce sobre a cidade, nada mais é do que o sopro da morte, que adormece, diante da solidão, que ainda queima e aquece os guerreiros de bronze fincados por sobre a rude testa dos montes guardiões da aurora escondida. No limiar da loucura que se anuncia, nem Marte e nem Vênus, largadas em meio ao turbilhão da noite que se anuncia, tiradas das luzes do astro-rei é jogada nas sombras de Plutão, da mão pesada de Netuno, que atirada ao mar, debruça sem dó, morta nos braços de Poseidon. Assim é Riace quando começa a anoitecer. Na escuridão de uma noite fria na colina descampada, onde o céu parecia beijar a terra e cobri-la com o sopro frio da morte inevitável de um soldado que da guerra saiu herói, mas da desgraça se fez derrotado… No seu último momento de lucidez pode ter como consolo as lágrimas de dois jovens filhos… Estendido por sobre um colchão quase na lona onde as palhas lhe servem de conforto para o corpo ossudo e já quase rígido. Aquele pobre homem ali deitado espera agora a hora de sua partida, já não há mais esperança para ele, porém o seu coração dói por deixar tão jovens os dois únicos filhos que a vida lhe deu… Infelizmente não gerados das suas entranhas, mas lhe chegaram ao coração e tudo por eles tentou fazer, mas os infortúnios da vida não lhe permitiu mais do que desgraças e fome. Os dois filhos ainda eram crianças para terem de enfrentar tamanha dor. O velho Victorio, com suas poucas forças, olhava com lágrimas nos olhos para aquelas duas tristes figuras a seu lado, primeiro virou a cabeça para onde estava o seu filho Giuseppe Benedetto, chamado por ele simplesmente de Benetto, menino de 15 anos, magro, rosto fino, cabelos encaracolados, olhos pequenos e puxados, sobrancelhas grossas, nariz grande, boca pequena. “(Página 63 in Brasiliana: A menina em Riace).
                                                                                                        ****
                Porque Gabriele foi para Itália? A mãe era realmente sua mãe ou ela era uma sequestradora de crianças? E como ela se envolveu com aquele velho?Seria Benetto seu irmão? Algumas perguntas já são respondidas neste primeiro livro da série Brasiliana, outras não. Entretanto, os assuntos complexos deste livro que se escondem embaixo da suavidade poética da autora, são muito bem abordados e merecem uma reflexão social profunda. A maledicência do povo e sua postura tão devota quanto desprovida de solidariedade não só precipitou quanto fomentou as desventuras daquela menina e sua familia. A situação complexa dos imigrantes ilegais e mesmo legais, que chegam em terras estranhas e precisam aprender a língua e a conviver rapidamente,muitas vezes sem auxilio do país de destino ou de origem. A terrível existência do tráfico de crianças e a falta de discussão clara sobre essa violência social. O trabalho infantil ainda presente em muitas regiões do mundo, muitas vezes com a conivência da própria família, especialmente as famílias de meninas,que por serem obrigadas a fazerem serviços domésticos, a sociedade ainda machista interpreta isso como uma forma normal da criança aprender as funções femininas-leia-se serviços domésticos- reservando às mulheres a única responsabilidade pelos cuidados da casa. Esses são alguns dos muitos assuntos abordados através das desventuras dessa jovem Gabriely. Um livro para ser lido e refletido em conversas sobre os temas apresentados. Sugiro que conheçam mais sobre Riace, na Itália, através da página da autora, na rede social Facebook, dedicada ao livro. É uma aula de história e geografia. Enfim, Brasiliana: a menina em Riace é um livro tocante. É muito bom ler uma obra com uma mensagem profunda sobre a realidade filosófica e social das minorias, das inúmeras “gabrielys”, sem vez e sem voz, perdida e entregue à própria sorte, sozinhas no mundo.

Recomendo.

Resenha de Michelle Louise Paranhos, resenhista do Arca Literária

http://www.arcaliteraria.com.br/