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terça-feira, março 22, 2011

MEU JARDIM


Vi rosas no jardim, a passarem por mim
Vi flores, vi jasmins, crisântemos,
Vi um narciso há olhar pra mim...
Seu sorriso de marfim, me enfeitiçou assim.
Vi um narciso a olhar pra mim, sé pra mim.
I
Vi rosas, vi flores no jardim,
Crisântemos a passarem por mim.
Vi um narciso a ficar por mim.
Vi botões e vi espinhos a me perseguirem,
Vi um narciso a me querer assim
II
Vi cravos apressados a passarem por mim.
Vi chegar um narciso pretensioso, amoroso, jeitoso,
Eu inocente, inconsciente, incoerente, displicente.
Deixei o narciso a chegar assim...
Vi rosas, vi espinhos a passarem por mim.
III
Vi um narciso a ficar por mim, pra mim
Vi o sol ardente me queimar a alma, vi roubar a minha calma.
Nos seus lábios me deixei embriagar, navegar, balançar.
Vi sorri pra mim e me vi refletida em suas pétalas,
IV
Bebi sedenta o mel da sua boca, uma sede louca.
Como uma torrente de água doce, a me afagar
Fria e fervente. Ardia, me consumia
Só eu não via, sentia, não queria acreditar.
Vi um narciso ardiloso, a chegar em mim...
V
Vi carvalhos, vi cedros e até uma palmeira e plantas rasteiras,
Há me avisarem, queriam me proteger, me socorrer.
No rio que brotava do seu sorriso, me vi e não sai dali,
Ali fiquei, sussurrei,supliquei.
Ali, como uma abelhinha a sugar do seu mel,
VI
Vi um narciso cruel a ficar em mim,
A ser tragada pelo fel, me consumia a alma,
Matava a minha calma.
Assim fiquei, entorpecida pelos seus beijos.
Embriagava-me cada vez mais no seu olhar.
VII
Ele há muito já desabrochou... tem nos galhos espinhos,
Tem na fronte o visgo e a dor.
Pediu-me amor, só o meu amor,
Não podia negar, me furtar, recuar, não dava pra voltar
Vi um narciso a ficar por mim, pra mim, em mim.
VIII
Estendi-me como flor a se abrir para o orvalho da noite.
Como gotas a deitar sangue na relva assim, fui dele sim.
Fui caindo, descendo, descendo, me perdendo.
Sofrendo sentindo a sua ida, esperando a sua volta.
No meu peito agora era só revolta.
IX
Vi um narciso ruim a fugir de mim,
Soltei as pétalas e me despedacei,
Na escuridão da noite, não vi mas flores,
Nem rosas a passarem por mim,
Não vi mas o jardim.
X
Não tinha mas flores, nem rosas,
Nem crisântemos a passarem por mim.
Agora todos olhavam,
Passavam há apontar pra mim.
Tudo secou, tudo murchou,
XI
Em volta era areia e espinhos,
Tristes espinhos. Por todo o meu caminho.
Deserto, certo, destino incerto.
Ninguém mas passava por mim.
Não tinha mais um narciso a esta em mim.
XII
Cuidado! sussurrou de leve o vento.
Eu não quero ouvi... já era tarde,
Busquei sair, mas, não segurei, me entreguei,
Joguei, risquei, não plantei nada, do que sonhei.
Sai a procurar pelo caminho do que sobrou de mim.
XIII
Não vejo mas nada há passar por mim,
No jardim das ilusões, não existe mas lugar pra mim.
Vi rosas murcharam, vi o mato crescer,
Vi desaparecer do meu corpo assim.
Aquele narciso que ficou em mim.
XIV
Sou a solidão, sou ilusão,
Sou escuridão, estou no vazio há procurar por mim...
Sou o resto, infesto, contamino, mino.
Não ouço mais o sino da igreja a tocar.
Não vejo mais ninguém passar por mim.
XV
Sigo a ti procurar. Sei que não vou encontrar,
Fico a ti esperar, tenho agora o peita a sufocar.
A derramar, sangrar, só o mais puro carmim...
Não vejo mais rosas, nem flores a passarem por mim,
Vou seguir pelo mundo desse jeito assim...

Escrita em julho/1981